Empresário de Ovar que liderava alegada “rede tentacular”
Face Oculta: prisão preventiva para José Godinho
Manuel José Godinho, principal arguido da Operação Face Oculta, vai aguardar julgamento em prisão preventiva. A medida de coacção, a mais grave de todas, foi conhecida ao fim de doze horas de interrogatório.
Apesar de no Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) de Aveiro ninguém ter revelado a medida de coacção imposta pelo tribunal ou a justificação para a mesma, o PÚBLICO apurou junto de fonte ligada à investigação que o empresário de Ovar vai continuar detido.
Manuel José Godinho chegou ao DIAP de Aveiro cerca das 11h, acompanhado por elementos da Polícia Judiciária e com um ar relativamente descontraído. Cerca de uma hora depois eram transportados dois computadores, que se suspeita que possam estar relacionados com a investigação, até às instalações daquele tribunal.
O interrogatório acabou por ser suspenso, para almoço, cerca das 13h45, retomando por volta das 15h15. Ao final da tarde, o empresário de Ovar voltou a abandonar o tribunal acompanhado dos elementos da PJ, mas já com um semblante completamente diferente daquele que apresentava ao início da manhã. Manuel José Godinho mostrava-se bastante agastado.
À hora de almoço ainda declarou aos jornalistas que o interrogatório estava “a decorrer normalmente”. Mas já ao início da noite saiu sem prestar declarações, tal como aconteceu com o seu advogado Pedro Teixeira.
O silêncio em torno do inquérito foi de tal ordem que, quando o empresário abandonou as instalações do DIAP, cerca das 18h30, ninguém confirmava ou desmentia aos jornalistas se o interrogatório tinha terminado ou estava sujeito a uma pausa. Só duas horas depois é que surgiu a informação, através do procurador encarregado do processo, Marques Vidal, de que o inquérito ainda não tinha terminado.
Mais 13 arguidos
Manuel José Godinho regressou às instalações do DIAP de Aveiro cerca das 21h, novamente acompanhado por elementos da PJ. O empresário de 55 anos é o único detido no âmbito da Operação Face Oculta, que envolve ainda outros 13 arguidos, entre os quais estão também o administrador da Rede Eléctrica Nacional (REN) José Penedos e o seu filho, o advogado Paulo Penedos. Armando Vara, vice-presidente do Millennium BCP, é outro dos arguidos envolvidos neste processo e, segundo o PÚBLICO apurou junto de fonte ligada à investigação, irá ser ouvido no Tribunal de Aveiro no próximo dia 9.
O processo está relacionado com alegados crimes económicos do grupo empresarial de Ovar, de Manuel José Godinho, que, através de um esquema organizado, terá sido beneficiado na adjudicação de concursos e consultas públicas, na área de recolha e gestão de resíduos industriais.
O mandado judicial da operação, a que o PÚBLICO teve acesso, refere mesmo a criação de uma “rede tentacular integrada”. Esta rede visava assegurar negócios com quatro grandes empresas da órbita do Estado. Quem facilitasse os negócios, através da sua influência, recebia, em contrapartida, luvas ou a oferta de bens valiosos, nomeadamente algumas viaturas de topo de gama. No vértice deste triângulo de interesses estava o empresário Manuel José Godinho.
Os investigadores estimam que o montante das “luvas” pagas pelo empresário de Ovar aos restantes arguidos ascenda a cerca de 400 mil euros. A quantia mais elevada, cerca de 270 mil euros, segundo refere o despacho, terá sido entregue a Paulo Penedos, ao que tudo indica para este influenciar decisões do seu pai, o presidente da Rede Eléctrica Nacional, SA.
Entre as várias reacções ao caso que foram sendo conhecidas ao longo do dia de ontem, está a exigência deixada pelo líder do CDS-PP, Paulo Portas. O líder dos democratas-cristãos pediu uma investigação “a fundo” à Operação Face Oculta e exigiu intransigência por parte da justiça se se provar que houve fenómenos de corrupção. “À Justiça o que é da Justiça, à política o que é da política”, referiu.
Operação Face Oculta: Armando Vara constituído arguido
Armando Vara foi constituído arguido no âmbito da operação "Face Oculta", levada a cabo pela Polícia Judiciária.
O ex-ministro deverá ter sido constituído arguido por indícios de crime económico. avança o Expresso, na sua edição online.
Fonte do BCP diz que "não houve qualquer busca ao banco". Instada a comentar as buscas ao gabinete de Armando Vara, a mesma fonte diz que "sobre isso não faz quaisquer comentários", no entanto, o jornal adianta que o banco liderado por Santos Ferreira foi informado de que a diligência efectuada não estava relacionada com a actividade bancária.
Segundo a RTP, Armando Vara terá sido apanhado numa escuta a negociar o pagamento de dez mil euros ao empresário Manuel Godinho, o único detido na operação da PJ.
Actualmente é o número dois do BCP, mas já foi ex-ministro da Administração Interna do Governo de António Guterres e presidente da Fundação para a Prevenção e Segurança. Aliás, foi Vara que criou este ultimo organismo e, apesar de privada, a Fundação recebeu um imóvel do Estado e subsídios de cerca de 400 mil contos, o que levantou dúvidas aos partidos da oposição. Vara acabou por se demitir do cargo.
O responsável chegou a exercer vários cargos dirigentes no Partido Socialista e foi vogal do conselho de administração da Caixa Geral dos Depósitos.
Armando Vara visado por "averiguação" do Banco de Portugal
O governador do Banco de Portugal está averiguar o papel de Armando Vara no processo "face Oculta". Enquanto regulador, Vítor Constâncio questiona a idoneidade do vice-presidente do BCP, que é arguido neste processo de corrupção.
